JANDIRA

26.5.16



Jandira esperava ouvir aquelas palavras como quem espera a sua vez de ser atendido no banco de doação de órgãos. Para ela, seria como estar numa bendita fila de espera para o transplante de coração, o seu telefone tocar e do outro lado, uma voz simpática de uma senhora no auge dos seus quarenta e poucos anos, a convidá-la para aparecer amanhã para o teste de compatibilidade, pois havia chegado a sua vez. Melhor, a senhora ligaria gritando euforicamente que haviam encontrado o doador perfeito para ela. E quando lá chegasse, seria recebida com uma festa de balões, musica, a equipa do Balé Kilandukilu e toda a comida que a sua dieta a obrigou a deixar de lado. Seria-lhe atribuída mais 10 anos de vida - independente do que lhe restou - como forma de compensação pelo tempo de espera pelo órgão.

Contudo, Jandira continuava na fila, a espera das benditas palavras do banco; aguardando por mais pessoas à sua frente, aguardando as velhas palavras que adoraria ouvir, no momento certo.

 Mas o momento certo não seria aquele? O momento em que ela sabia o que sentia e o que esperava? Em que estaria disposta a renunciar de algumas coisas só para ter a chance de ouvi-las? Não seria melhor aproveitar o tempo, enquanto havia tempo?  

Decerto seria, mas não foi; Jandira tanto aguardou que o tempo passou e não trouxe com ele momento algum, o tempo passou apenas para  levar o resto de esperança que ela insistia em manter.
Num dia qualquer, do outro lado, ela ouviu o que sempre quis, mas aquele “Eu te amo”, já nada significava – naquele momento, ela soube que não estava dependente das palavras, mas do tempo, e este quando passa, dilui tudo que não foi aproveitado, deixando a lembrança do que nunca aconteceu, no passado do tempo que já não volta mais.

Foto por @notflavio

Leia Também

0 Comentários

Post's Populares

Gosta do Blog no Facebook

Flickr Images

~