Uma Trégua... Parte 2

24.4.12


A visita

Segui o meu ritual diário: Um maço de Camel , desta vez ao som de Teta Lando e pensamentos tristes para acompanhar.  Ouvi três toques na porta. Desta vez até já sabia quem era. Não foram combinados ou algo assim, ela simplesmente prefere bater três vezes antes de vir  perturbar-me. Eu sentia que ela estava a caminho. Sempre atraente, delirante, hipnotizando-me  fazendo-me convidá-la para uma pequena conversa. Não tive como fingir ausência, abri a porta e ela entrou. Não poderia encontrar melhor oportunidade que esta para aparecer.
Dessa vez ela foi rápida. Entrou, sentou-se e olhou-me nos olhos. Eu simplesmente não sabia o que dizer.  A Saudade nunca foi uma “pessoa”  fácil. Não sabia se ela existia para fazer-me querer as coisas que perdi de volta ou se era apenas para deixá-las lá, no passado. Pegou o meu trago, começou a fumá-lo e a falar do passado.
- Tu lembras? De como foste feliz? Das pessoas  que tinhas ao teu lado e de como era bonito aquele teu poder de melhorar qualquer situação? Aonde foi que guardaste aquilo tudo, diz-me? O que fizeste de ti? — a Saudade disse friamente, dando um riso sarcástico no fim, voltando a fixar-me os seus olhos, continuando: — Tantos amores que perdeste, tantas oportunidades deixaste passar...  Até parece que eu gosto de te acompanhar por onde vais. Mas não, não gosto. Às vezes  cansa-me, sabes?  realmente cansa-me ter que ficar  aqui a lembrar-te de como  eras especial,  de como  brilhavas até mesmo sem ninguém.  Eu te admirava!  Evitava aparecer para não atrapalhar a luz que te rodeava. Hoje? O que és hoje? Perdes o teu tempo com coisas fúteis, logo tu que odiavas essas superficialidades. Eu juro que se esse teu orgulho e esse teu comodismo não fossem tão fortes, eu te levaria  ao passado. Ou pelo menos tentaria. Mas tu escolheste assim.

Hoje a tua vida é estar trancada neste inferno que tu chamas de casa. Evitando tudo e todos. Se não tivesses aquele emprego que detestas, o que seria de ti?

Ela conhecia-me muito bem e dizia coisas intensas, profundas. Fazia-me realmente voltar ao passado, mas somente em pensamentos. O mais admirável é que ela conseguia aparecer de todos os modos: em cheiros, em roupas, em fotos, e até mesmo em músicas. Ela me enchia com toda a luz e logo de seguida saía, deixando um vazio grande, aquele gosto de nostalgia que eu sabia que não iria abandonar-me tão cedo.
E nessa solidão acompanhada de sobriedade e o fumo do meu cigarro, a saudade vem acompanhando-me.  Esse sentimento que não sabe se vai ou se volta; não sabe se me faz parar ou me faz voltar. Talvez tenha que ser assim. Talvez eu tenha que continuar a ser a coisa monótona que a Saudade carrega na sua mala. Frustrações me deixaram assim,  ela deveria tentar  compreender-me!

Mas a Saudade? Compreensível? Não. Ela apenas vem e vai, inúmeras vezes. Deixando rastos, pegadas, todas as evidências possíveis. Deixando sempre aquele gosto doce/amargo da saudade.

Leia Também

6 Comentários

  1. nao existe nenhuma palavra , nem verbo ai explicido que nao seja verdade , a profundidade delas , faz com que as sentimos bem ca dentro , adorei o texto amor :)

    espero o do amanha .
    Beijoo

    Julia !!

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito do texto
    Fez-me lembrar de coisas que tem a ver comigo.

    ResponderEliminar
  3. Ainda bem, fico mesmo feliz porque essa é a ideia :)

    Um beijo

    ResponderEliminar
  4. Me identifiquei com o texto... A solidao que referes no final e mais presente que a saudade ! Ela tambem me abandonou!!!!
    BjoS2
    Leocadia

    ResponderEliminar
  5. #Dope! A #Saudade nunca foi uma ''pessoa'' fácil!

    ResponderEliminar

Post's Populares

Gosta do Blog no Facebook

Flickr Images

~